quinta-feira, 10 de maio de 2012

Erros de traduções


Com freqüência a má interpretação de uma única palavra pode alterar a história. É o caso do "cornamento" da cabeça de Moisés. Um erro na tradução do livro do Êxodo feita por São Jerônimo resultou em que milhares de reproduções do profeta apareçam com chifres.

O texto hebreu original dizia que o lendário profeta dos judeus, cristãos e muçulmanos, tinha "karan'ohr panav" (um rosto do qual emanavam raios de luz). O santo tradutor, pai da igreja trocou as bolas na descrição de Moisés para a edição ao latim da Bíblia, chamada a Vulgata. Texto bíblico oficial da Igreja católica até a promulgação da Neovulgata em 1979.

São Jerônimo confundiu a palavra "keren" que em hebreu pode significar raio ou corno. A partir de então, artistas e escultores, temendo represálias por parte da igreja se não se ajustassem aos Evangelhos, começaram a representar Moisés com cornos.

Moisés com chifres de Michelângelo
Um simples erro deixou Moisés deformado para o resto da história.

Vírgula blasfêmica: em várias edições da Bíblia King James é possível ler: "E também tinha outros dois malfeitores [crucificados junto a Jesus]" deveria ter sido "E também tinha outros dois, malfeitores" para não incluir Jesus nesse distinto grupo.

A Bíblia dos pecadores ou dos malvados: refere-se à Bíblia publicada em 1631 por Robert Barker e Lucas Martin em Londres. O nome dado a esta Bíblia é pelo erro, por omissão, da palavra "não": nos Dez Mandamentos, onde aparece "Cometerás adultério" em vez de "Não cometerás adultério". Os editores da Bíblia foram multados em 300 libras e perderam sua licença de impressão. Hoje em dia, existem 11 cópias desta edição.

A Bíblia dos injustos: é conhecida assim por uma edição de Cambridge de 1653. Na primeira carta aos Corintios faz-se a pergunta: "Não sabeis que os injustos herdarão o reino de Deus?", em vez de "Não sabeis que os injustos não herdarão o reino de Deus?".

A Bíblia dos tontos: edição de 1763. Em um Salmo relata: "Diz o néscio em seu coração há um Deus", em vez de "...não há um Deus". Os impressores foram multados com três mil libras e foram obrigados a destruir todas as cópias.

A Bíblia dos camelos: na edição de 1823 inclui-se "...levantou-se Rebeca e seus camelos (camels)", em vez de "...levantou-se Rebeca e suas donzelas (damcels)".

A Bíblia da impressora: é uma edição publicada de 1702. No Salmo 119, em lugar de queixar dos "Príncipes (princes) perseguiram-me sem causa", diz, "As impressoras (printers) perseguiram-me sem causa".

A Bíblia do vinagre: versão publicada em Oxford em 1717, por J. Baskett. Converte a parábola do vinhedo (vineyard) na parábola do vinagre (vinegar).


A Bíblia das corujas: edição de 1944, no primeiro livro de Pedro lê-se: "...as mulheres estavam sujeitas a seus maridos corujas (owl)" em vez de "...as mulheres estavam sujeitas a seus próprios (own) maridos".

A Bíblia dos responsáveis: edição de 1562 publicada em Genebra no evangelho de Mateus: "Bem-aventurados os responsáveis pelo lugar (place-makers)", em lugar de "Bem aventurados os pacificadores (peacemakers)".

As versões atuais: "E disse-lhe Jesus: Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso."  (Lucas 23 : 43) Da a impressão que Jesus subiu ao paraiso no mesmo dia. Tudo uma questão da virgula errada:
"E disse-lhe Jesus: Em verdade te digo hoje,  estarás comigo no Paraíso."  (Lucas 23 : 43)

Estes são apenas alguns exemplos de algumas traduções erradas. Por isso o ideal é ter mais de uma versão da bíblia.

Shalom!

domingo, 6 de maio de 2012

9 de Av : Como o ódio é pior que a idolatria e demais pecados


9 de av: Rompendo Muralhas
Jane Bichmacher de Glasman
Queda do primeiro templo

Rupturas e angústias
O período de 3 semanas de 17 de Tamuz a 9 de Av é conhecido como bein há-meitzarim que significa entre angústias, aflições ou literalmente, estreitezas[1].

Em 17 de tamuz recordamos muitas rupturas: das tábuas por Moisés; das muralhas de Jerusalém; do santuário do Templo profanado; da oferenda diária interrompida; dos rolos de Torá queimados por Apóstomo... Não foi à toa que Sadam Hussein “batizou” seu reator nuclear de Tamuz 17!

Já 9 de av é a data mais sombria do calendário judaico.

O Talmud (Taanit 29-a) nos conta que tudo começou um ano e meio após o êxodo do Egito: antes de o povo judeu entrar e conquistar a Terra Prometida, Moisés enviou para lá doze espiões. Ao voltarem, disseram ao povo que os habitantes eram muito fortes e que os judeus tinham poucas chances de vencê-los. Segundo a Torá, "Naquela noite, o povo chorou" (Nm 14:1). D’us puniu os israelitas por essa falta de fé, decretando que iriam errar pelo deserto durante 40 anos até morrer. Somente seus filhos iriam entrar na Terra Prometida. E acrescentou: "Esta noite choraram em vão; Proclamarei este dia como dia de luto para as gerações vindouras". Era dia 9 de Av...

E é longa a lista de fatos trágicos que nele se registram:

586 a.e.c. - Destruição do Primeiro Templo pelos babilônios;

70 e.c. - Destruição do Segundo Templo pelos romanos e o início do Exílio;

135 - Queda de Betar, último reduto da Revolta de Bar Kochba, com milhares de judeus mortos ou exilados e a última esperança de reconquistar a independência dos romanos destruída;

136 - Jerusalém foi destruída e a romana de Aelia Capitolina estabelecida em seu lugar;

1290 - Assinatura do édito de expulsão dos judeus da Inglaterra;

1492 - Os judeus foram expulsos da Espanha;

1555 - O Papa Paulo IV força todos os judeus de Roma a se mudarem para uma área malcheirosa próxima ao Rio Tiber e a pagar pelo muro que cercava o Gueto;

1914 - Início da Primeira Guerra Mundial (e a Alemanha derrotada foi o solo fértil da Shoá);

1942 - Começo da deportação dos judeus do Gueto de Varsóvia.

No ciclo de vida judaico, que continua e se repete, foram inseridas tradições para lembrar que a alegria não está completa sem Jerusalém e o Templo:

- um prato é quebrado na assinatura de um contrato de noivado;
- o noivo quebra um copo debaixo da hupá após a cerimônia de casamento;
- uma pequena parte de parede em toda casa nova é deixada sem gesso ou sem pintura

Como o ódio pode ser pior que a idolatria, perversão, paganismo e demais pecados
 O Talmud (Yomah 9b) explica que o Primeiro Templo foi destruído por causa de idolatria, homicídios e imoralidade sexual.

Durante a época do Segundo Templo, os judeus estudavam a Torá e respeitavam suas leis; todavia, se odiavam.


Não vemos por exemplo Jesus acusando os judeus de idolatria, mas de serem maus e perversos: (Mt 11,16/12,39/12,41/12,42/12/45)


Ele foi destruído por uma só razão: sinat hinam ou ódio gratuito: as pessoas se odiavam sem nenhuma razão, não havia compaixão e falavam mal uns dos outros (lashon hará).

Nossos sábios ensinam que esses atos são equivalentes (ou piores) do que idolatria, imoralidade e assassinato. Tanto que o Primeiro Templo foi reconstruído 70 anos após sua destruição, e o segundo, quase 2000 anos depois, ainda não...

O Talmud (Guitin 55-57a) conta uma estória que simboliza este ódio: no meio de um banquete dado por um homem rico, este descobre que Bar Kamtsa, seu inimigo, tinha sido convidado em vez de Kamtsa, seu amigo, e se recusa a ouvir a súplica de Bar Kamtsa para não ser humilhado em público ou mesmo sua oferta para pagar as despesas. Pôs Bar Kamtsa para fora à força, o qual, em represália, incitou Roma contra o povo judeu.

O anfitrião não aceitou Bar Kamtsa de jeito algum. Qualquer reconhecimento seria admitir que existisse um intrínseco relacionamento. Permitir que Bar Kamtsa ficasse significaria haver uma conexão, e, portanto, em algum nível, um compromisso - e isso, para o anfitrião, era impensável.
E esta é a essência do Sinat hinam, ódio gratuito: a recusa em reconhecer um relacionamento, uma conexão, um compromisso com o outro, não por causa de algo que a pessoa fez, mas tão somente por causa da pessoa, sua presença, intruso no “espaço pessoal”. Sinat hinam significa que o simples fato de a outra pessoa existir é uma ofensa.

Uma lenda (Midrash Eicha Raba) narra, com fins educativos, que na noite de Tisha beAv, a alma do patriarca Abrahão entrou no Kodesh há-Kodashim[2] e perguntou: D´us, onde estão meus filhos? D´us respondeu: Eles pecaram, portanto os exilei entre as nações. Abrahão insiste: Mas não havia nenhum virtuoso? D’us explicou: Cada um se regozijou com a ruína do outro...

As muralhas
E qual a relação disto com as muralhas de Jerusalém?
Uma muralha protege os que estão dentro de invasores indesejáveis e une os que estão dentro de seus limites, forçando o reconhecimento de um vínculo entre as pessoas. Quando ela é rompida, ambas as funções são perturbadas - inimigos podem penetrar na cidade e as pessoas podem ignorar suas obrigações, abandonar a cidade, romper sua unidade.

A muralha que cercava Jerusalém unia os judeus numa existência comum através de Ahavat Israel, amor fraterno, porque dentro do muro localizava-se o Templo, representando a mais elevada conexão e o mais profundo compromisso. Sinat hinam, a falta de união, de consciência da conexão essencial entre o povo judeu, provocou o exílio. Para trazermos a Redenção, precisamos praticar Ahavat chinam, amor gratuito e incondicional. Para reconstruir a muralha, precisamos reconhecer e validar nossos relacionamentos, exprimir nossa unidade essencial.

Um só coração...
 “Nada mais inteiro do que um coração partido[3]”...

Conta-se que, certa vez, Napoleão Bonaparte ouviu lamentos e choros vindos de uma sinagoga. Querendo saber o motivo, vieram lhe informar que aquele era o dia de Tisha beAv e que os judeus estavam chorando pela destruição de seu Templo em Jerusalém. “Como eu não ouvi falar? Quando aconteceu?”, perguntou Napoleão. Quando descobriu que o fato havia ocorrido quase 2.000 anos atrás, Napoleão disse: “Uma nação que recorda seu Templo destruído e lamenta tão profundamente e por tanto tempo sua perda, certamente terá o mérito de vê-lo reconstruído!”

É hora de unirmos nossos corações. Parafraseando Napoleão, não há outro povo no mundo cuja vida tenha sido tão influenciada por acontecimentos tão antigos. Apenas quem sabe lembrar e sofrer as dores do passado é capaz de reconstruir o seu futuro.

[1] Esta seria a origem judaica da expressão “agosto, mês de desgosto”, introduzida por cristãos-novos, pois o mês de Av costuma cair nesta época. Ver “9 de Av e Sefarad” Visão Judaica nº 70, julho de 2008 www.visaojudaica.com.br/Julho2008/artigos/4.html
[2] O lugar mais sagrado do Templo em que apenas o Sumo Sacerdote podia entrar em Iom Kipur
[3] Frase de Rabi Menachem Mendel de Kotzk (Polônia, 1787-1859)

fonte: rio total
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...