Mas
será que foi sempre assim? Será que os primeiros cristãos pensavam desta
maneira? Será que foi essa a mensagem de Jesus?
Vejamos a
seguir, um debate entre um irmão que é a favor da lei e outro que considera que
a lei foi abolida. Vamos chamar o que é a favor da lei de legalista só para
diferenciar:
Legalista_
Meus irmãos, que aproveita se alguém disser que tem fé, e não tiver as obras?
Porventura a fé pode salvá-lo?
Refutação_
Nós Concluímos, que o homem é justificado pela fé sem as obras da lei.
Legalista_Ó
homem incensato, queres tu saber que a fé sem as obras é morta? Assim também a
fé, se não tiver as obras, é morta em si mesma.
Refutação_Se
nosso pai Abraão, foi justificado pelas obras, tem de que se gloriar, mas não
diante de Deus.
Legalista_Porventura
o nosso pai Abraão não foi justificado pelas obras, quando ofereceu sobre o
altar o seu filho Isaque? Bem vês que a fé cooperou com as suas obras, e que
pelas obras a fé foi aperfeiçoada.
Refutação_Aquele
que não pratica qualquer obra, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé
lhe é imputada como justiça.
Legalista_Vedes
então que o homem é justificado pelas obras, e não somente pela fé.
Refutação_Pois,
que diz a Escritura? Creu Abraão em Deus, e isso lhe foi imputado como justiça.
Legalista_A
Escritura diz: E creu Abraão em Deus, e foi-lhe isso imputado como justiça, e
foi chamado o amigo de Deus.
Seria um
dialogo interessante entre dois irmãos com pontos de vista diferentes, mas
nesse caso, este debate esta na bíblia. Não como debate e não de forma
explicita, mas em livros diferentes. Trata-se das epistolas de Paulo aos
romanos (Rm 4,1-5) e a epístola de Tiago (Tg 2,14-26). É interessante notar que
em ambas as epístolas, além de utilizarem as mesmas palavras, os mesmos termos
gregos inclusive, ambos fazem menção a Abraão e citam o mesmo versículo de
Gênesis 15,6 mas sob perspectivas diferentes. Parece ser uma carta em resposta a outra. Paulo entende que Abraão foi
justificado perante Deus pela sua fé apenas enquanto que Tiago entende que a fé
de Abraão foi acompanhada de uma obra, o sacrificio de seu filho, e isso foi o
que o justificou e não apenas a crença em Deus.
Qual dos
dois esta certo? Será que
se Abraão não tivesse oferecido o filho em holocausto como Deus ordenara e
apenas acreditado ele teria sido justificado? Ou será
que Paulo esta dizendo que mesmo se ele tivesse feito tudo, mas não crido,
teria sido em vão? Ainda que seja bem dificil imaginar que Abraão tivesse feito
tudo aquilo sem acreditar!
O que acontece neste exemplo, comparando duas epístolas que se
contrapõem, é que notamos que havia um certo diferenciamento na maneira de
entender de Paulo e dos demias apóstolos. Alguns seguidores do messias do
primeiro século, por exemplo, não consideravam Paulo um apóstolo e rejeitavam
suas epístolas, devido a essas divergências. Vale a pena ressaltar também que
Paulo era o apóstolo dos gentios, portanto sua mensagem era menos legalista do
que a dos apóstolos que pregavam à Judeus. As suas pregações cheias de fé, mas
desobrigando os gentios de seguirem a Torá não eram bem vistas por algumas
comunidades judaicas do primeiro século. Na verdade, vemos no próprio novo
testamento estas acusações contra Paulo, quando este esteve na casa de Tiago em
Jerusalém:
"E,
ouvindo-o eles, glorificaram ao Senhor, e disseram-lhe: Bem vês, irmão, quantos
milhares de judeus há que crêem, e todos são zeladores da lei. E já acerca de
ti foram informados de que ensinas todos os judeus que estão entre os gentios a
apartarem-se de Moisés, dizendo que não devem circuncidar seus filhos, nem
andar segundo o costume da lei" At 21,20-21
Estas
acusações não partiam apenas dos fariseus ou dos sacerdotes, mas também de
judeus crentes no messias que não gostavam das pregações de Paulo sobre o não
cumprimento da lei. Neste mesmo trecho de Atos, vemos que o irmão, supostamente
Tiago, lhe diz que deve mostrar aos judeus que é guardador da lei e que com
relação aos gentios, não impuseram a lei, como aliás, até hoje, o judaísmo
determina, que os gentios não são obrigados a seguirem a lei:
Esta
diferença de exegese entre Paulo e Tiago, reflete esse pensamento ambíguo que
já havia no primeiro século dentre os seguidores do messias. Haviam os
messiânicos que seguiam a Torá e os messiânicos que não achavam mais necessário
o cumprimento da lei. Alguns achavam que a salvação era pelas obras e outros,
como Paulo, que era apenas pela fé.
Hoje, é
muito fácil tomar partido nesta questão. Qualquer um pode abrir sua bíblia e
citar diversos versículos a favor da salvação pela fé. Mas isso é porque a
forma como a bíblia chegou até nós, ela foi compilada com mais epístolas de
Paulo, na verdade, mais da metade do novo testamento é atribuído a Paulo. Hoje
sabemos que havia uma disputa no primeiro século entre os seguidores de Paulo e
os seguidores dos outros apóstolos, e que no final, os Paulinos saíram
vitoriosos quando no concilio de Nicéia, diversas epístolas suas foram
incluídas no cânone e muitas das dos demais apóstolos foram descartadas, porque os gentios convertidos não viam como agradável a lei de Moisés e preferiram criar as suas próprias. Fica
uma pergunta no ar: Se a bíblia tivesse sido montada com mais epistolas de
Tiago e menos de Paulo, será que o cristianismo seguiria essa linha teológica
de salvação gratuita?
Nas
palavras do messias, vemos que Jesus dizia que a forma como julgaria, não era
tão gratuita assim ou apenas pela crença nele:
“Nem todo o que me diz: Senhor,
Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que
está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos
nós em teu nome? e em teu nome não expulsamos demônios? e em teu nome não
fizemos muitas maravilhas? E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci;
apartai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade” Mt 7, 21-23
Paulo influenciou a doutrina cristã
de uma maneira um tanto diferente. Desde as pregações de João batista, vemos
uma exortação a pratica de obras. João, mesmo sabendo e anunciando a vinda do
messias, exortava, na condição de profeta, que os fariseus produzissem boas
obras e não apenas que cressem:
“Produzi, pois, frutos dignos de
arrependimento;” Mt 3,8
Em outras passagens como a do jovem
rico, onde Jesus lhe diz que deve seguir os mandamentos e depois diz que lhe
falta a caridade, exortando-o a vender seus bens e dar aos pobres e depois
segui-lo, não parecem condizentes com este conceito de salvação gratuita. Vemos
que o homem rico creu que Jesus era um homem enviado de Deus, mas não praticou
a obra que Jesus pedira.
Talvez
Paulo, por pregar aos gentios, não achasse importante uma exortação exagerada a
obras, mas sim a aceitação da mensagem de Jesus e de que ele era o messias.
Talvez suas palavras tenham sido tão fervorosas, que entendemos que a crença em
Jesus é mais fundamental que as obras, garantindo a salvação. Contradizendo
mesmo o que Jesus disse que uma arvore se conhece pelos frutos. E por isso
havia essa disputa entre os seguidores do messias convertidos por Paulo e pelos
demais. Paulo dizia que não aprendeu sua doutrina com homens (Gl1,12) e que os
apóstolos não lhe acrescentaram nada e se auto denominava apóstolo (Rm 11,13)
Seja como for, fica a reflexão! Será
que a salvação é tão gratuita assim? Será que da para conciliar a justiça
divina com isso? Mais da metade do planeta não é cristã. Será que todos os
budistas, hinduístas, mulçumanos, orientais, indígenas etc... já estão
automaticamente condenados? Para um fundamentalista sim. Mas se for dessa
maneira, porque Deus chamou a Ciro, rei da Pérsia de Ungido e nunca foi imposto
a Ciro uma conversão ao judaísmo? O mesmo aconteceu com outros personagens,
como Nabucodonossor por exemplo.ou Raabe.
“Porque, assim como o corpo sem o
espírito está morto, assim também a fé sem obras é morta” Tg 2,26
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| salvo? |
Entre a
teologia da salvação gratuita e da salvação pelas obras, talvez devêssemos ficar
com os ensinamentos do messias mesmo:
“Então dirá o Rei aos que estiverem
à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos
está preparado desde a fundação do mundo; Porque tive fome, e destes-me de
comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me; Estava nu, e vestistes-me; adoeci, e
visitastes-me; estive na prisão, e fostes ver-me. Então os justos lhe
responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? ou
com sede, e te demos de beber? E quando te vimos estrangeiro, e te hospedamos?
ou nu, e te vestimos? E quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos ver-te?
E, respondendo o Rei, lhes dirá: Em verdade vos digo que quando o fizestes a um
destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes” Mt 25, 34-40
Paz a todos!

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