Segundo a própria escritura e tradição, os hebreus se tornaram monoteístas a partir do patriarca Abraão. Segundo a tradição, o pai de Abraão era um fabricante de ídolos e um dia Abraão percebeu que só havia um Deus. Ele se revoltou, quebrou as imagens de seu pai, e então achou graça aos olhos de Deus, que fez um pacto com ele e lhe disse para deixar a terra de Ur, dos caldeus e seguir para a terra prometida. Então é obvio que se Abraão foi o primeiro monoteísta, os persnagens anteriores a ele não foram, como Noé, Enoque, Matusalém etc.... Mas na escritura da a entender que sim.
O fato é que o monoteísmo, foi adotado e sendo desenvolvido pelo povo judeu através dos anos, e só se solidificou de fato após o cativeiro Babilônico.
Até
o ano de 586 a.C. quando começou o exílio dos israelitas em Babilônia o
politeísmo fazia parte da cultura de Israel. Foi apenas após o exílio que a
adoração única e exclusiva de Yahweh (Javé ou Jeová) tornou-se estabelecida e
possivelmente só mais tarde no tempo dos Macabeus (2º século a.C.) que o
monoteísmo se tornou universal entre os judeus. O Deus bíblico do Antigo Testamento
provavelmente foi uma fusão de vários Deuses pagãos.
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| escultura antiga do deus El, cananeu |
A personalidade e os
atributos de Yahweh foram influenciados por outras antigas divindades do
Oriente como o Pai celestial El, o jovem guerreiro Baal e a senhora Asherah.
Especialistas que estudam os textos bíblicos, leem antigas inscrições
encontradas nos arredores de Israel e escavam sítios arqueológicos estão
reconhecendo a influência conjunta de diversos Deuses pagãos antigos no retrato
de Yahweh traçado pela Bíblia que parece ter múltiplas personalidades.
Elementos comuns à cultura das antigas civilizações do Oriente Médio,
principalmente da região onde hoje ficam o estado de Israel, os territórios
palestinos, o Líbano e a Síria, contribuíram para as ideias que os antigos
israelitas tinham sobre os seres divinos (Israel Finkelstein e Neil Asher
Silberman, The Bible Unearthed: Archaeology's
New Vision of Ancient Israel and the Origin of Its Sacred Texts. Simon & Schuster, 2002, pág. 241-42).
Há bons indícios de que o
Deus do Velho Testamento é uma fusão entre um Deus idoso e paternal (El), um
jovem Deus guerreiro (Baal) e a Deusa do sexo feminino (Asherah).
Baal em hebraico significa senhor, mas também era o nome de uma divindade dos caldeus. Todos conhecem a história do profeta Elias contra os profetas de baal ou as várias menções a essa divindade nos livros proféticos, sobretudo jeremias:
"Os quais cuidam fazer com que o meu povo se esqueça do meu nome pelos seus sonhos que cada um conta ao seu próximo, assim como seus pais se esqueceram do meu nome por causa de Baal." (Jeremias 23 : 27)
"Porque edificaram os altos de Baal, para queimarem seus filhos no fogo em holocaustos a Baal; o que nunca lhes ordenei, nem falei, nem me veio ao pensamento." (Jeremias 19 : 5)
"E quando nós queimávamos incenso à rainha dos céus, e lhe oferecíamos libações, acaso lhe fizemos bolos, para a adorar, e oferecemos-lhe libações sem nossos maridos?" (Jeremias 44 : 19)
Existe uma
base cultural comum entre o antigo povo de Israel e seus vizinhos e adversários,
os cananeus, moradores da terra de Canaã, como era chamada a região entre o rio
Jordão e o mar Mediterrâneo em tempos antigos. A Bíblia retrata os israelitas
como um povo quase totalmente distinto dos cananeus, mas os dados arqueológicos
revelam profundas semelhanças de língua, costumes e cultura material. A língua
de Canaã, por exemplo, era só um dialeto um pouco diferente do hebraico
bíblico. Os cananeus não deixaram para trás uma herança literária tão rica
quanto a Bíblia, no entanto, poucos quilômetros ao norte de Canaã, na atual
Síria, ficava a cidade-Estado de Ugarit, cuja língua e cultura eram
praticamente idênticas às de seus primos do sul. Ugarit foi destruída por
invasores bárbaros em 1200 a.C., mas os arqueólogos recuperaram numerosas inscrições
da cidade, nas quais dá para entrever uma mitologia que apresenta semelhanças
impressionantes com as narrativas da Bíblia (Mark S. Smith, The Origins of Biblical Monotheism: Israel's Polytheistic
Background and the Ugaritic Texts. Oxford University Press,
USA, November 6, 2003. ISBN 978-0195167689).
Uma das figuras mais proeminentes nesses
textos é El, nome que quer dizer simplesmente “Deus” nas antigas línguas da
região, mas que também se refere a uma divindade específica, o patriarca, ou
chefe de família dos Deuses. O El de Ugarit tem paralelos muito específicos com
a figura de Deus durante o período patriarcal, retratado no livro do Gênesis e
personificado pelos ancestrais dos israelitas, Abraão, Isaac e Jacó. Nesses
textos da Bíblia há, por exemplo, referências a El Shadday (literalmente “El da
Montanha”, embora a expressão normalmente seja traduzida como “Deus
Todo-Poderoso”), El Elyon (“Deus Altíssimo”) e El Olam (“Deus Eterno”). O
curioso é que, na mitologia ugarítica, El também é imaginado vivendo no alto de
uma montanha e visto como um ancião sábio de vida eterna. Tal como os
patriarcas bíblicos, El é uma espécie de nômade, vivendo numa versão divina da
tenda dos beduínos e mais importante ainda, El tem uma relação especial com os
chefes dos clãs e tal como Abraão, Isaac e Jacó, ele os protege e lhes promete
uma descendência numerosa. Ora, a maior parte do livro do Gênesis é o relato da
amizade de Deus com os patriarcas israelitas, guiando suas migrações e fazendo
a promessa solene de transformar a descendência deles num povo “mais numeroso
que as estrelas do céu”.
Segundo o professor Frank Moore Cross,
professor de Hebraico e outras Línguas Orientais, emérito da Universidade de
Harvard, notável por seu trabalho na interpretação dos Manuscritos do Mar
Morto, Yahweh (YHWH) era um título dado pelos primeiros israelitas à suprema
divindade El, durante o período da Idade do Bronze (aproximadamente 1200 a.C.).
Posteriormente, o contrário aconteceu, tornando-se a palavra El um título e
Yahweh o nome próprio da suprema divindade israelita, talvez num ímpeto
nacionalista daquele povo em querer se perceber diferente dos outros povos que
habitavam a Palestina (Frank Moore Cross, Canaanite Myth and Hebrew Epic: Essays in the History of the
Religion of Israel. Harvard
University Press, 1997. ISBN 978-0674091764).
Outra hipótese muito estudada é a chamada
“Hipótese Quenita-Midianita”, proposta pelo teólogo holandês Cornelius Petrus
Tiele em 1872, em que Yahweh originalmente era uma divindade originária de
perto da região do Sinai, de Parã e Edom. A bíblia retrata que Moisés tinha
conexões com os povos desta região, os Quenitas, por meio de seu sogro Jetro,
que era Quenita:
“E Moisés
tornou-se pastor do rebanho de Jetro, sacerdote de Midiã, de quem era genro”
(Êxodo 3:1).
“E os filhos do
queneu, de quem Moisés era genro” (Juízes 1:16).
Independentemente se um Moisés histórico
existiu, esta história preserva uma tradição que os israelitas tinham em
conexão com estes povos de vida nômade (Quenitas/Midianitas) que viviam na
região desértica ao sul de Israel. Provavelmente a história da origem de Moisés
é uma construção literária de tribos nômades como os primeiros israelitas e os
cananeus adoradores da divindade El, para retratar a incorporação ao Deus do
deserto Yahweh. A medida que houve uma miscigenação entre os povos, um acabou
identificando sua divindade protetora com a outra, e com o tempo Yahweh foi
incorporando aspectos da divindade El, numa espécie de sincretismo religioso
(Donald B. Redford, Egypt, Canaan, and Israel in Ancient
Times. Princeton University Press, 1992. ISBN
978-0691036069).
Outros textos bíblicos corroboram com a
tradição de que a habitação ou residência original de Yahweh (Jeová) era nesta
região desértica próxima ao Sinai:
“E ele passou
a dizer: “Jeová — de Sinai ele veio, e raiou sobre eles desde Seir, reluziu
desde a região montanhosa de Parã, e com ele havia santas miríades, à sua
direita, guerreiros pertencentes a eles” (Deuteronômio 33:02)
“Jeová, quando saíste
de Seir, quando marchaste desde o campo de Edom, tremeu a terra... Montes
fluíram de diante da face de Jeová, este Sinai, de diante da face de Jeová,
Deus de Israel” (Juízes 5:4-5).
“O próprio Deus
passou a chegar de Temã, sim, um Santo desde o monte Parã. Sua dignidade cobriu
[os] céus; e do seu louvor encheu-se a terra” (Habacuque 3:3).
Uma evidência extra bíblica que concorda
com esta visão de que Yahweh (YHWH) originalmente é associado com os povos de
vida nômade que habitavam regiões desérticas próximas ao Sinai, foi encontrada
no Templo de Amon em Soleb, Núbia, erigido pelo faraó Amenófis III (1391-1353
a.C.). Em uma parede do templo, o Faraó egípcio faz menção a um grupo de
pessoas retratadas como “Shasu”, que no idioma egípcio significa
“nômades/beduínos”. Dentre vários grupos de Shasu, encontram-se os “Shasu de
YHW” (Michael C. Astour, Yahweh in Egyptian
Topographic Lists. In Festschrift Elmar Edel, M. Gorg & E. Pusch,
Bamberg, 1979 / Anson F. Rainey, Shasu or Habiru. Who Were the Early Israelites? Biblical Archeology Review 34:6, Nov-Dez / Dermot Anthony
Nestor, Cognitive Perspectives on Israelite Identity. Continuum
International Publishing Group, 2010 p.185) [Nota – As argumentações acima
a partir da referência ao professor Frank Moore Cross são de autoria de Gustavo
Padovan extraídas do link: http://extestemunhasdejeova.net/forum/viewtopic.php?f=11&t=14440#p286892].
Quando Yahweh entra em cena na bíblia com
seu “nome oficial” durante o êxodo bíblico, a impressão que se tem é que ele já
absorveu boa parte das características de um outro Deus cananeu chamado Baal
(literalmente “senhor”, “mestre” e em certos contextos, até “marido”), um
guerreiro jovem e impetuoso que acabou assumindo na mitologia de Ugarit e da
Fenícia (atual Líbano) o papel de comando que era de El. Indícios dessa nova
“personalidade” de Deus surgem no fato de que, pela primeira vez na narrativa
bíblica, Yahweh é visto como um guerreiro, destruindo os “carros de guerra e
cavaleiros” do Faraó e mais tarde, guiando as tribos de Israel à vitória
durante a conquista da terra de Canaã. Tal como Baal, Yahweh é descrito como
“cavalgando as nuvens” e “trovejando”. E mais importante ainda, uma série de
textos bíblicos falam de Deus impondo sua vontade contra os mares impetuosos
(como no caso do Mar Vermelho) ou derrotando monstros marinhos (Isaías 51:9;
Êxodo 14:15-31).
Há aí uma série de semelhanças com a mitologia Cananéia sobre
Baal, o qual derrotou em combate o Deus-monstro marinho Yam (o nome quer dizer
simplesmente “mar” em hebraico) ou “o Rio” personificado. Na mitologia do Oriente
Próximo, as águas marinhas eram vistas como símbolos do caos primitivo, e por
isso tinham de ser derrotadas e domadas pelos Deuses. Yahweh também é associado
à chuva e à fertilidade da terra pelos antigos autores bíblicos, atributos que
aparecem entre as funções de Baal (John Day, Yahweh and the Gods and Goddesses of Canaan [Library Hebrew
Bible/Old Testament Studies]. Bloomsbury T&T Clark; 1 edition, December 1, 2002. ISBN
978-0826468307).
Asherah possivelmente era uma Deusa e
consorte de Yahweh no Antigo Israel e não um simples atributo deste. Há
referências à adoração de vários Deuses pelos reis israelitas. É relatado na
bíblia que Salomão construiu vários templos para muitos Deuses e Josias
destruiu as estátuas de Asherah que foram erguidas por seu avô Manassés. (1º
Reis 11:1-8; 2º Reis 21:1-9) Várias descobertas arqueológicas nos ajudam nesta
reflexão, destacando as de Khirbet el-Qom em 1967 e a de Kuntillet Adjrud em
1976, que traz a inscrição “abençoo-te em
Yahweh de Teman e sua Asherah” mostrando claramente que a Deusa
Asherah era encarada na época como uma companheira ou esposa de Yahweh. Um dos
mais antigos artefatos arqueológicos de Israel datado de 1000 a.C., um púlpito
politeísta de Tanach escavado em 1968 pelo arqueólogo americano Paul Lapp,
apresenta representações da Deusa Asherah e Yahweh, mostrando a natureza
politeísta da antiga cultura israelita. (Othmar Kell and Christoph Uehlinger, Gods, goddesses, and images of God in
ancient Israel. Fortress Press, 1998, págs. 228-239
/ Meindert Djikstra, I Have Blessed you by YHWH of Samaria and his Asherah: Texts With
Religious Elements from the Soil Archive of Ancient Israel, in Bob Becking, Only One God? Monotheism in Ancient Israel
and the Veneration of the Goddess Asherah. Sheffield Academic Press, 2001, págs. 32-34).
O livro bíblico dos Provérbios, bem como
alguns outras fontes israelitas, apresenta a figura da Sabedoria personificada,
uma espécie de “auxiliar” ou “primeira criatura” de Deus que o teria auxiliado
na obra da criação do mundo. Segundo o texto dos Provérbios, Deus “se deleita”
com a Sabedoria e a usa para inspirar atos sábios nos seres humanos (Provérbios
8:22-31). Para muitos pesquisadores a figura da Sabedoria incorpora aspectos da
antiga Asherah na maneira como os antigos israelitas viam Deus.
Embora o
próprio Deus não seja descrito como feminino, haveria uma complementaridade
entre ele e sua principal auxiliar. Portanto, assim como os antigos gregos, os
israelitas tinham um panteão de Deuses em sua adoração como Yahweh, Baal e
Asherah, conforme comprovado por evidências arqueológicas.
A proibição da Deusa Asherah é fruto de
um dado momento histórico de elaboração e ascensão do monoteísmo. A identidade
judaica, após a drástica experiência do exílio babilônico e na tentativa de
reorganização da nação, passa a se basear num só Deus. A centralidade em Yahweh
se torna um fator importante da nova identidade nacional em formação, que foi
moldada pelos movimentos reformadores de Esdras e Neemias.
A idolatria passa a
ser a causa da ruína de Israel. Vemos este reflexo no conflito que os textos
bíblicos demonstram em relação a Asherah e a outros Deuses e Deusas, bem como,
em relação principalmente às mulheres estrangeiras. A elaboração e instituição
do monoteísmo não aconteceu de forma democrática e pacífica. A partir de um
contexto politeísta, a centralidade em Yahweh é um processo violento, proibindo
e demonizando o diferente como uma ameaça. Um processo nítido de intolerância
religiosa e destruição da cultura anterior. A supressão do culto e da imagem da
Deusa Asherah traz consequências profundas, afetando em especial as mulheres,
que tinham na Deusa uma possibilidade de representação do feminino no sagrado.
Assim, a religião judaica vai se constituindo em torno de um único Deus
masculino, sustentando historicamente uma sociedade patriarcal (William G.
Dever, Did God Have a Wife? Archaeology and Folk Religion in Ancient
Israel. Wm. B. Eerdmans Publishing Co. July 23, 2008.
ISBN 978-0802863942).
Um relato bíblico que demonstra bem esta
questão do politeísmo no Antigo Israel encontra-se no livro de 1 Samuel
capítulo 15. Nesta passagem o profeta Samuel ordena que Saul, o primeiro Rei de
Israel destrua a nação de Amaleque, que segundo o profeta havia agido mau para
com os israelitas no passado. A orientação é destruir tudo sem dó nem piedade,
incluindo mulheres e bebês, até mesmo os animais. Só que Saul resolveu ter
compaixão e não matou o Rei Aguague e o melhor do rebanho amalequita. Quando
Samuel ficou sabendo disso ficou furioso com o Rei Saul que tentava de todas as
formas explicar os motivos que o levaram a agir daquela forma. Mas o profeta
Samuel não quis dar ouvidos as explicações do Rei Saul, ele disse que Jeová
(Yahweh) havia rejeitado Saul. Desesperado o Rei Saul agarra a aba da túnica do
profeta e implora usando a seguinte expressão: “Pequei. Agora, por favor, honra-me diante dos anciãos do meu povo
e diante de Israel, e volta comigo, e eu certamente me prostrarei diante de
Jeová, teu Deus” (1ª Samuel 15:30).
Observou a última expressão usada pelo
Rei Saul, “teu Deus”? O texto mostra claramente que Jeová (Yahweh) era o Deus
de Samuel, mas Saul prestava reverência a outro Deus além de Jeová. Samuel não
era da mesma tribo de Saul, pelo visto cada tribo tinha um Deus considerado o
principal e provavelmente Jeová não era o Deus principal da tribo de Saul. Se
Jeová fosse o Deus principal de Saul ele usaria a expressão “nosso Deus”. Mas
não foi esta expressão que Saul usou, o texto é bem claro, ele disse “teu
Deus”. O fato de Saul ter dito “teu Deus” era porque Samuel era um profeta de
Jeová. Havia profetas de vários Deuses no Antigo Israel, profetas de Jeová,
profetas de Baal, profetas de Asherah, etc. Cada um era consultado para
determinado assunto. Presume-se que Jeová era associado à guerra, portanto,
esta divindade era consultada para este tipo de assunto.
Em certa ocasião, o
Rei Acazias de Israel pediu consulta ao Deus Baal-Zebube, para saber se ele se
recuperaria de seu acidente. Provavelmente, Baal-Zebube era uma divindade
ligada à cura: “Certo dia, Acazias caiu da sacada do
seu quarto no palácio de Samaria e ficou muito ferido. Então enviou mensageiros
para consultar Baal-Zebube, deus de Ecrom, para saber se ele se recuperaria” (2
Reis 1:2, Nova Versão Internacional). Se Saul estivesse interessado em
saber algo relacionado com sua saúde ou de sua família possivelmente teria
consultado um profeta de Baal-Zebube. É sabido que Saul tinha um filho chamado
Esbaal, cujo nome significa Homem de Baal: “Ner gerou Quis, que gerou Saul. Saul gerou Jônatas, Malquisua,
Abinadabe e Esbaal” (1 Crônicas 8:33, Nova Versão
Internacional). [Nota – O parágrafo acima é de autoria de Gustavo Padovan
extraído do
link: http://extestemunhasdejeova.net/forum/viewtopic.php?f=11&t=14925#p294442]
Obviamente, depois do exilio babilônico,
os escribas que reescreveram a história de Israel fizeram questão de colocar os
profetas dos outros Deuses que não fossem de Jeová (Yahweh) como sendo falsos e
os que os seguiam como sendo pessoas desviadas da verdadeira fé. Sempre quando
havia alguma disputa entre os profetas para determinar quem era o verdadeiro e
mais poderoso Deus, os escribas passaram a colocar os profetas de Jeová
(Yahweh) com sendo sempre os vitoriosos, dando assim suporte a adoração monoteísta
que eles queriam justificar e perpetuar. Apesar dos reformadores do período pós
exilio reescreverem a história de Israel tentando retirar todos os traços de
politeísmo de seus escritos sagrados, observamos em algumas passagens
expressões que indicam a cultura politeísta do antigo Israel. Observe alguns
versos na bíblia que mostram Yahweh (Jeová) como um entre vários outros Deuses
existentes.
“Quem entre
os deuses é semelhante a ti, ó Jeová?”. Entre os deuses,
Hebraico: ba·’e·lím, plural de ’El (Êxodo 15:11).
“Não há
nenhum igual a ti entre os deuses, ó Jeová, nem há quaisquer
trabalhos iguais aos teus”. Entre os deuses, Hebraico: va·’elo·hím; Grego: the·oís
(Salmos 86:8).
“Agora sei
deveras que Jeová é maior do que todos os [demais] deuses”. Os [demais]
deuses, Hebraico: ha·’elo·hím; Grego: tous the·oús (Êxodo 18:11).
“Pois,
Jeová, vosso Deus, é o Deus dos deuses”. Ou “Deus de
deuses”, Hebraico: ’Elo·héh ha·’elo·hím; Grego: The·ós ton the·ón (Deuteronômio
10:17).
“O Deus
dos deuses, Iahweh, o Deus dos deuses, Iahweh, bem o sabe, e Israel deve
sabê-lo: se houve de nossa parte rebelião ou infidelidade para com Iahweh, que
ele deixe de nos salvar neste dia”. Ou “Deus de Deuses”, Hebraico:
’El ’Elo·hím Yehwáh (Josué 22:22, Bíblia de Jerusalém).
“Fala Iahweh, o
Deus dos deuses, convocando a terra, do nascente ao poente”. Ou “Deus
de deuses”, Hebraico: ’El ’Elo·hím (Salmos 50:1, Bíblia de Jerusalém).
Expressões como “Entre os deuses”, “Os
demais deuses” e “Deus de deuses” são claras em demonstrar a cultura politeísta
no antigo Israel.
O melhor termo para enquadrarmos a antiga religião
israelita seria o monolatria, que significa o reconhecimento da existência de
outros Deuses, mas prestação de adoração consistente e exclusiva à apenas um
Deus. Porém, até mesmo esta classificação pode ser contestada, haja vista que a
história israelita que sobreviveu até nós foi contada pelos Judeus séculos depois
dos acontecimentos. Para os sacerdotes do Judaísmo do 2º Templo (após a queda
da Babilônia) seria um vexame mencionar que outros Deuses eram adorados
conjuntamente com Jeová, portanto eles reescreveram a história, apontando que a
adoração de outros Deuses foi uma exceção, um desvio. Porém a arqueologia está
provando cada vez mais que aquilo que a bíblia conta como exceção na verdade
era a regra, o politeísmo era a principal
religião deles (Mark S. Smith, The Early History of
God: Yahweh and the Other Deities in Ancient Israel [Biblical Resource Series]. Wm. B. Eerdmans Publishing Company, 2 edition, August
3, 2002. ISBN978-0802839725). [Nota - O parágrafo acima é de autoria
de Gustavo Padovan extraído do
link: http://extestemunhasdejeova.net/forum/viewtopic.php?f=11&t=14767&st=0&sk=t&sd=a&start=10#p291998]
Fonte - Este texto foi extraído do livro "A Bíblia Sob
Escrutínio", publicado pela Editora Clube de Autores. Para conhecê-lo
acesse o site através deste link: www.clubedeautores.com.br/book/161402--A_BIBLIA_SOB_ESCRUTINIO
A ORIGEM DA DIVINDADE IAVÉ E A PEQUENA HISTÓRIA DA
RELIGIÃO DE ISRAEL
De Edmilson Bento da Silva
Prefácio
O ensaio que abaixo reproduzo trata-se de uma
palestra por mim proferida na Universidade Federal Fluminense, no Centro de
Estudos Interdisciplinar de Antiguidade (CEIA), às 08:00 horas do dia 26 de
outubro de 1999. Naquela época, meu intento era rebater a visão histórica
evolucionista e idealista a respeito da história da religião do antigo Israel.
Por visão evolucionista os historiadores denominam a abordagem sequencial e
linear: fetichismo?politeísmo? monoteísmo, e, por visão idealista, compreende o
modo de explicação dos eventos históricos que privilegia o papel da consciência
(as "grandes idéias"), expressas nas idéias políticas, éticas,
filosóficas, científicas, etc. que mudam por si só no curso da história, sem
considerar a vida social e o contexto sócio-histórico em que tais idéias
emergem. Minha surpresa foi constatar que os alunos universitários ali
presentes, ao no lugar de abrir um diálogo sobre as novas abordagem e novas
fontes para a pesquisa, se sentiram indignados com o processo de historização
do fenômeno da crença.
Por incrível que pareça, os dados descritos abaixo
a respeito do desenvolvimento da religião iaveística é de conhecimento comum a
teólogos (católicos e protestantes) e biblistas.
I - O nome
O nome da divindade israelita é chamada Iavé. A
palavra "Yahweh" é o termo acadêmico e consagrado do nome próprio em
hebraico da divindade israelita YHWH, oriundo das quatro letras hebraicas: הוהי
(iod-he-vav-he)
lida de trás para frente cuja leitura é aproximadamente "ieuê" ou
"iaué". O nome Jeová constitui um erro de tradução; ocorreu devido ao
tabu de não pronunciar o nome da divindade, assim, quando o sacerdote lia o
texto do Pentateuco e aparecia as quatro letras YHWH, substituía a pronúncia
pela palavra Adonai(meu senhor). Muito mais tarde, no século XVI de nossa era,
os exegetas interpolaram as vogais de Adonai: a-o-ai, daí Jahovah ou Jeovah.
Apesar de popular, a notação não corresponde a fatos e sim a um acidente
histórico, e deve ser recusada.
A pronúncia primitiva e correta
da divindade israelita não pode ser fixada com precisão. Mesmo a forma do nome
Iavé não é correta, esta forma pode ter origem na teologia do estamento
sacerdotal que forçou a aproximação de YHWH com a passagem do Êxodo III,
13-15: ehyeh ,asher ,ehyeh, ao qual é
traduzido por "eu sou aquele que sou" ou então, "eu sou aquele
que é", sugerindo que o nome de YHWH provém da forma imperfeita da raiz
qal cujo verbo é hyy (haia), o verbo ser hebraico. O prefixo "Y" põe
os verbos hebraicos no futuro e anteposto à raiz "HWH" (infinitivo
presente do verbo "ser"), faria o significado de YHWH em: "o ser
para todo o sempre", o ser absoluto, assim entendido, como quer a versão
dos Setenta, que traduziu para o grego: εãù åéìé ´ï ïí (ego eimi ho ôn). Todavia, o redator da
passagem do Êxodo III, 13-15, movido pelo extremo zelo do tabu da pronúncia do
nome, utilizou este recurso enigmático, para criar um rodeio poético,
equivalente recusa da divindade em responder, impedindo a Moisés vir a conhecer
a sua natureza. Os especialistas que fazem derivar o nome de Iavé da raiz hyy
não estão em acordo sobre a forma de como reconhecê-la em Yahweh. Eles entendem
que o nome de Iavé deve ser traduzido por "ele é" ou "ele faz
ser". No entanto, é mais fácil reconhecer em Yahweh uma outra raiz,
hwh/hwy, a raiz do verbo hebraico que significa "cair",
"abater", "descer", desapareceu quase que por completo no
hebraico, mas se conservou no árabe. Julius Wellhausen, D. H. Holzinger e H
Bauer Leander defendem que o nome Yahweh deriva da raiz semítica hwh
"cair".
Os primeiros cristãos anotavam a
pronúncia de YHWH nas letras gregas Iabe(iabe), Iaone (iaoune), Iaonai
(iaounai). Nos papiros míticos judeus-cristãos a forma é Iawonhe (iaôouêe). Já
a transcrição grega mais freqüente e também a mais antiga é a notação Iao
(íao), que é atestada desde o Qumran.
Roland de Vaux e André Caquot
tentaram reconstituir a antiga pronúncia e forma do nome de Iavé. Eles
acreditam que podem encontrar o antigo nome da divindade israelita nos nomes
teóforos hebraicos correspondentes a Yeho eYahu. A forma Yeho é atestada nos
nomes Yehokhakin (Joaquim), Yehoshuah(Josué ou Jesus). A forma Yahu é
encontrada nos nomes Azaryahu (Azarias),Yahuddah (Judas) e Mattitiyahu
(Matias). Também há uma forma curta Iah que aparece em outros nomes: Azaryah
(Azarias), Tobiyah (Tobias) e na expressão hallelu-yah ("deus seja
louvado"). Atualmente, a partir destas formas teóforas, formou-se um
consenso em torno da palavra Yaho para designar o nome primitivo da divindade
israelita, tal como querem Roland de Vaux e André Caquot.
II - A origem do deus
Segundo Jean Leclant, egiptólogo,
o nome do deus de Israel é um topônimo. Baseando-se em escavações arqueológicas
realizadas em Soleb, na margem esquerda do Nilo, foi encontrada uma inscrição
na sala hipostila do templo erguido por Amenhotep III; a inscrição contida no
escudete (séc. XIV a. C.) refere-se a um povo nômade inimigo do Egito ao leste.
O trecho é o seguinte:to sho-su iahuo; "to" refere-se à designação
geopolítica, terra estrangeira; o vocábulo "sho-su" remete-se aos
habitantes do deserto, aos povos nômades; e o termo "iahuo" é
identificado com o nome de alguma montanha, situada a leste do Egito e ao sul
da Palestina. A decifração da inscrição é o seguinte: "terra dos shosu de
Iahuo". Ou melhor "país dos beduínos de Iahuo". SeLeclant
estiver certo, a inscrição é a mais antiga notação histórica conhecida do nome
do deus de Israel fora da Bíblia. Argumenta Jean Leclant que do nome desta
montanha, os israelitas teriam tirado o nome da divindade protetora de sua confederação.
Em apoio a afirmativa de Leclant, destacamos: 1- o nomeIahuo está em acordo com
a antiga pronúncia defendida por alguns biblistas juntamente com Roland de Vaux
e André Caquot (Iahuo = Yaho); 2- o nome se aproxima muito da mais antiga
transcrição grega (Iao = Yaho); e 3- a referência ao deus de Israel na
inscrição moabita, conhecida como a estela deMesha (século IX a. C.), permite
fazer a transcrição do nome da divindade com o final em "o" (Yahu =
Yaho).
Assim, Yahweh é a pronúncia
transfigurada de Iaho, um deus cultuado em uma desconhecida montanha Iahuo, em
território madianita.
O deus dos israelitas é o
resultado do sincretismo religioso do deus dos relâmpagos, Iahu, dos madianita
e quenitas, conhecido também pelos arameus do norte da Síria, com a divindade
das terríveis tempestades de deserto, o deus Ya'uq, temido pelos árabes, ao
qual os hebreus entraram em contato nos séculos XII e XI a. C.
III - O período
"pré-mosaico" (séc. XIV a. C.)
Dados da historiografia e da
arqueologia não atestam o culto de Iavé antes do século XIII a. C. e, portanto,
antes de Iavé tornar-se o protetor da confederação tribal israelita, os hebreus
admitiam vários sistemas religiosos simultâneos, e nenhum deles entravam em
conflito na cabeça daqueles nômades.
Os hebreus pertenciam a grande
etnia semítica. Os antigos semitas veneravam uma força impessoal, invisível e
intangível, expressa no princípio divino 'l, que agia na natureza mas não tinha
consciência de si. Este princípio divino aparece em todas as civilizações semíticas
posteriores como Allá dos árabes, El dos cananeus, Baal dos fenícios, Ilu dos
assírios e Bel dos caldeus.
A) O culto ao "deus dos
pais". Os líderes dos acampamentos, os patriarcas, rendiam culto especial
ao chamado "deus dos pais", o antepassado mítico do clã. Cada clã
possuía seu "deus dos pais", uma espécie de herói lendário que fundou
o clã e transmitiu os costumes e instituições da família. O "deus dos
pais" não tinha um local fixo de culto, residia em uma tenda especial e
acompanhava as viagens do clã pelo deserto e pela estepe, assegurando o bom
relacionamento com os vizinhos e protegendo os membros do clã contra os
infortúnios das viagens. O "deus dos pais" não possuía uma
representação figurativa, porque é extremamente difícil no deserto e na estepe
a confecção de imagens.
Paralelamente ao culto do
"deus dos pais", os hebreus veneravam árvores, fontes de água,
grutas, montes, etc., que se relacionavam de alguma maneira com os eventos
lendários do mito do "deus dos pais" (locais por onde o antepassado
passou, etc.). Por outro lado, estes objetos da natureza também eram
compreendido como entidades sagradas, pois, eram o receptáculo de uma força
invisível, similar aos gênios das tribos árabes.
B) O culto às pedras. Os hebreus
dos século XIV também veneravam pedras mágicas, os terafins, relacionados
também ao culto ancestral. Apareceram após a supressão ao culto de imagens de
"deusas-mães", que as mulheres recorriam a sua proteção no momento do
parto. Os terafins não eram propriamente deuses mas, amuletos mágicos, símbolos
da prosperidade. Estas pedras eram mantidas dentro das tendas.
"E teve este homem, Mica, uma casa de deuses; e fez um éfode e terafins, e consagrou um de seus filhos, para que lhe fosse por sacerdote." (Juízes 17 : 5)
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| Moisés faz uma serpente em uma haste e todos que olhassem para ela seriam curados |
C) O culto às forças naturais e à
serpente. Era crença corrente que uma entidade furiosa habitava o deserto e os
hebreus imputavam a esta força a responsabilidade pelas tempestades de areia
que derrubava as tendas e desaparecia com as rezes, além de trazer as doenças
como urticária que atacavam o gado. Para aplacar a ira desta entidade, os
hebreus recorriam ao sacrifício do cordeiro e do bode. Era um sacrifício
pascal, praticado antes do início da primavera, quando então, imolava-se um
cordeiro. Um sacrifício análogo ocorria no outono, antes da transumância para a
pastagem na estepe, quando então, era solto um bode no deserto. A circuncisão,
prática encontrada entre os sacerdotes egípcios da Antiguidade e numerosas
tribos árabes, era uma medida para afastar a infertilidade que poderia abater
tanto sobre a família quanto sobre o gado: para agradá-la, recorria-se a
circuncisão, a entidade fugia afugentada pelo horror ao sangue ou era aplacada
com o rito. O prepúcio era oferecido e, ocorria na ocasião da passagem do
membro masculino para a vida adulta ou da iniciação ao casamento. O culto à
serpente era uma prática muito comum na Palestina; imagens de serpentes
recebiam culto especial pois, com este culto apotropeico, os hebreus julgavam
afastar ou minimizar as picadas das víboras reais, já que eram muito freqüente
na Palestina.
D) Práticas mágicas. Os hebreus
eram um povo rude, sem escrita e muito supersticioso. Havia numerosas
interdições religiosas de carácter alimentar, sexual e social. Vivendo em um
ambiente hostil do deserto e da estepe, em confronto com povos vizinhos e
sofrendo constantes perigos de animais selvagens, os hebreus recorriam
freqüentemente às magias. Entre elas, destacam-se a crença no "mau
olhado", o poder mágico da palavra (proferido como bênção ou maldição pelo
moribundo), a crença na magia da dança da chuva e da dança da guerra, o uso
mágico do vestuário, a magia da impostura da mão, o uso da necromancia, etc.
Havia, curandeiros, videntes, adivinhos.
E) Os mitos. Há forte indícios
que os antigos hebreus conheciam uma pluralidade de mitos, entretanto, a grande
maioria foi combatida e propositadamente esquecida pelo clero iaveísta. Os hebreus
acreditavam na existência de gigantes, do monstro marinho Tannin e no dragão
Leviatã; possuíam uma concepção que acima da abóbada celeste era coberta por
água. A presença mitológica de animais fabulosos, os serafins, criaturas
sinuosas, serafim está na raiz srph, (seraph), que significa
"abrasador", uma alusão a crença em dragões.
IV - O antigo iaveísmo (sécs.
XIII e XII)
Com o assentamento em Palestina,
os hebreus, agora denominados israelitas, tornaram-se agricultores e fundaram
uma confederação tribal denominada Beni-Israel, filhos de Israel. Nesta época,
o contato com a civilização cananéia provocou modificações na religiosidade
israelita. O culto ao "deus dos pais" foi substituído pelo culto à
divindade cananéia El, o deus do céu, da palavra el, originou no hebreu o termo
eloá, deus; a palavra eloim é o plural intensivo de eloá, para designar a
majestade divina.
A) A emergência do culto de Iavé.
A origem de Iavé está ligada ao grupo que saiu do Egito em 1.200 a. C.,
conheceu a divindade madianita Yahu e fez o sincretismo com o Ya'uq dos árabes,
constituindo, então, em Yaho. Deus guerreiro, senhor do relâmpago, tal como
sugere o nome original Yaho do verbo hwh/hwy primitivo, que significa
"cair", "abater", ou "descer", uma clara alusão
ao relâmpago, assegurava a vitória sobre os inimigos de Israel.
O grupo que saiu do Egito
dirigiu-se ao oásis de Cades, onde ali receberam elementos que futuramente
iriam se constituir na tribo dos levitas. Esses futuros levitas cultuavam o
deus-serpente Nehustan da palavra nahash, o deus símbolo da sabedoria e da cura
medicinal. Os levitas, cuja palavra árabe lawah significa
"desenroscar-se", possui uma etimologia muito parecida com
Levi-athan, o dragão, adentraram ao círculo de Moisés após a saída do Egito e
identificaram em Iavé atributos do seu próprio deus e foram um dos principais
divulgadores do iaveísmo. Este clero trouxe para o culto israelita um nova
modalidade de adivinhação: os objetos de pedra urim e tumim (que significam
respectivamente "maldito" e "inocente"). Relacionados a
prática oracular, estes objetos eram mantidos dentro de sacolas, e quando se
fazia uma pergunta e se tirasse um tumim, significava um "sim", e se
tirasse um urim significava um "não".
Iavé era sempre evocado no
contexto das batalhas com os povos vizinhos como convém a um deus guerreiro,
pois, era o protetor da confederação tribal israelita.
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| Efode, um tipo de oraculo de pedras utilizado pelos sacerdotes em sua veste para se comunicar com deus |
B) Os outros cultos. Com a adoção
da agricultura, os israelitas cultuavam os diversos "baals" de cada
localidade, tidos como generosos propiciadores de abundante colheita. Era a
Baal e não a Iavé que os agricultores israelitas julgavam a responsabilidade da
fertilidade do solo. Os "baals" eram concebidos na forma de um tronco
de árvore decepado, de uma estaca de madeira fincada no terreno ou na forma de
um amontoado de pedras.
Os terafins assumiram uma forma
humana e passaram a ser amuletos de cunho pessoal, em vez de ser da família,
como era na época da pastorícia. Quando os terafins eram recobertos com algum
tipo de metal chamavam-se de éfode. O éfode, do hebraico 'pd, significa: 1o a
parte do vestuário sacerdotal, a tanga de linho, usada pelos ministros do
culto, 2o o éfode do sumo-sacertode, espécie de colete preso por um cinto e
suspensório, 3o os objetos oracular e surim e tumim.
V - O Iaveísmo no Período dos
Juízes (secs. XII - X a. C.)
A) Os ritos agrários. No período
pré-estatal, os israelitas adotaram muitos deuses cananeus, além de El e de
Baal, as divindades cananeias adotadas possuíam um atributo específico, de
acordo com a divisão do trabalho, reflexo que se operava na complexificação da
sociedade. Havia Dagon, o deus do trigo; Astarte, a deusa do amor; Tammuz, o
deus da vegetação; a deusa do Sol, Shapach, e a deusa-mãe Asherah associada ao
culto de Baal.
"E levou-me à entrada da porta da casa do SENHOR, que está do lado norte, e eis que estavam ali mulheres assentadas chorando a Tamuz." (Ezequiel 8 : 14)
A preocupação com a fecundidade da terra afetou profundamente o
iaveísmo. Os camponeses adoravam Iavé na forma de um touro em um altar cercado
por uma paliçada (que mais tarde a teologia sacerdotal transformou na narrativa
do "Bezerro de Ouro"). A assembléia de anciãos recorria a Iavé na
forma de máscaras humanas (encontradas em Hazor) para obter oráculos sobre a
estratégia de guerra. E, na liturgia, os sacerdotes utilizavam um objeto, o
éfode.
B) Os deuses tribais. Cada tribo,
além disso, possuía um patrono: o asno, o cordeiro, o bezerro. As tribos do
norte (José e Efraim) cultuavam o deus-touro, símbolo da fecundidade.
C) O deus El. A divindade
cananéia El era o deus do céu, os cananeus julgavam-no o criador do mundo e da
humanidade; o seu culto foi sobrepujado pelo deus Baal, tornando, assim, um
deus ocioso. Entretanto, os israelitas associaram os atributos do deus El ao
deus Iavé, criando agora um novo sincretismo. Acontece que o El israelita era
uma divindade da confederação tribal, era uma entidade impessoal, por exemplo,
Iavé-El era adorado sob a forma de vários epítetos, cada um deles evocado de
acordo com um contexto específico. El Elion, o deus altíssimo (a parte mais
alta de uma porta); El Shaddai, "o todo poderoso" (na verdade, a
etimologia da palavra sugere ser o deus da estepe: shaddu, estepe), era
cultuado em Manre; El Sebaot, o "deus das hostes celestiais", evocado
no contexto da batalha, era adorado em Silo;El Ro'i, o deus da visão, "o
onisciente", cultuado em Neguebe; El Olam, o deus eterno, cultuado em Berseba;
El Bethel, o deus de Bethel, cultuado nesta cidade; sem mencionar, é claro nos
vários qone eretz, o possessor do solo, representado pelos "baals", e
o massebah (plural massebot), estela de pedra, na forma de um falo, símbolo das
divindades masculinas cananéias. Havia um versão feminina dessa estela: a
asherah (plural asherot).
D) A representação de Iavé. O
carácter anícola de Iavé não foi uma peculiaridade na História das Religiões.
Na Antigüidade houve povos que concebiam que o seu deus supremo como uma
divindade cósmica, com poderes extraordinários mas, restritos ao seu país.
Estes povos concebiam o seu deus sob a forma humana mas, admitiam que nenhum
humano podia vê-los. Inclusive, entre os assírios, Assur, aparentemente não
chegou a ter representação figurativa. Além disso, as tribos árabes do norte da
Síria possuíam uma concepção metafísica de uma força invisível, o princípio 'l,
que certamente contribuiu para a formação do mito de Iavé. Por outro lado, os
israelitas não desconheciam ídolos religiosos, como já foi mencionado. Ademais,
além do símbolo do touro, no dia a dia da vida do camponês havia o éfode, a
massebah, e a arca da aliança, o símbolo da presença do deus. Os trechos do
Êxodo XX, XXIII e XXIV, 17 proíbem a representação do deus de Israel moldado em
metal, ouro ou prata, o que deixa livre o uso de outros materiais como osso,
madeira e pedra, certamente menos custosos. Era senso comum que os israelitas
concebiam do seu deus nacional Iavé na forma humana e pertencente ao sexo
masculino; é um deus temível, exigente, vingativo e muito ciumento - constitui
um reflexo de uma sociedade altamente militarizada, machista e patriarcal -,
protegia seu povo e era implacável com quem o contestasse. Os textos do
Pentateuco comentam a sua personalidade: Iavé descansa, arrepende-se, ira-se,
alegra-se, ouve, vê e fala aos homens.
E) O monoteísmo. Na mente da
população camponesa, iletrada e restrita ao seu território, a idéia de uma
divindade humana, de carácter universal, única e sem representação figurada era
deveras abstrata e difícil de conceber. Outrossim, os israelitas aceitavam
normalmente que os deuses de outros povos eram tão verdadeiro quanto o seu,
Iavé era o deus nacional de Israel assim como Marduc era o deus nacional da
Babilônia, Assur o deus dos assírios, Quemoch o deus dos moabitas e Milcom, a
divindade protetora do povo amorita, o que significava que o israelita comum
professava uma monolatria (processo pelo qual um devoto diante de uma
multiplicidade de divindades, declara culto exclusivo a uma só, por uma espécie
de bajulação excessiva e uma relação afetiva para com o seu deus, excluindo os
demais deuses mas, reconhecendo-os como reais).
VI - O iaveísmo no período da
monarquia (secs. X - VII)
O iaveísmo conviveu com a
religião cananéia e foi pouco a pouco absorvendo suas concepções. Tal
sincretismo continuou por muitos séculos, tal como podemos encontrar na
religião dos colonos judeus, no século V a. C., em Elefantina, Egito, que,
inclusivamente, conceberam uma divindade fêmea consorte de Iavé: Anat Iahu.
Iavé estava a frente de uma
multiplicidade de divindades, era o deus supremo de Israel, o protetor da
confederação tribal, contudo, no dia a dia, os israelitas recorriam as
divindades mais ligadas ao culto agrário: os deuses tribais tinham mais
substância e presença do que o deus supremo - Iavé era o deus nacional da
confederação tribal e não um deus de cunho pessoal. Por outro lado, devemos
considerar que as concepções do iaveísmo variavam muito de aldeia para aldeia e
na prática, cada pessoa interpretava livremente os mitos e os ritos.
A) A participação do Estado na
religião. Quando a realeza unificou as tribos, deu realidade a idéia de Israel,
mas tarde formulada na mitologia do "pacto". Neste ponto, o iaveísmo
foi bastante promovido pelo Estado: foi a corte e o clero ligado ao palácio que
tiveram recursos para criar a literatura religiosa e o culto elaborado. Na
ideologia de Estado, Iavé foi comparado à realeza: era um deus que governava
Israel com sua corte celestial; dizia-se que Iavé possuía servos, mensageiros,
um trono e indumentária; reinava em Israel assim como os outros deuses reinavam
em outras nações.
O clero elaborou um primitivo
decálogo (dez mandamentos), mais tarde atribuído a Moisés, onde podemos encontrar as antigas
concepções do iaveísmo:
1- Não curvarás a tua fronte
diante de nenhum deus estrangeiro.
2- Não construirás nenhum deus de
metal fundido.
3- Observarás sempre a festa dos
ázimos, no mês de nisan(março/abril), para recordar a tua passagem no deserto.
[O termo hebraico é pesah, em grego é dito pascha, que se tronou depois páscoa.
Relacionava primitivamente à festa do início da primavera. Veja a parte III-C.]
4- Todo primogênito é meu:
resgatarás com um sacrifício o primeiro parto entre a criação, grande ou
pequena, o primogênito entre os filhos. [O sacrifício de crianças não era
desconhecido pelo iaveísmo; sacrificava-se crianças na ocasião da erecção da
pedra angular ou no término de uma construção; entretanto, considerando a alta
taxa de mortalidade infantil, é possível que as crianças fossem oferecidas já
mortas. Outrossim, o sacrifício a Iavé era as rezes]
5- Jamais comparecerás diante de
mim de mãos vazias.
6- Três vezes por ano todos os
teus filhos homens comparecerão perante o Senhor. [As três festas pastorais da
primavera, do verão e do outono]
7- Jamais deixarás correr o
sangue da minha vítima diante do pão fermentado. [Lembranças das velhas
proibições rituais, ligado ao carácter sagrado do sangue e do lêvedo]
8- Não deixarás para amanhã o
consumo de minha vítima pascal. [ Para que não se esgote a carga mágica que
traz em si todo animal sacrificado aos poderes divinos]
9- Levarás a flor das flores das
primícias do solo à casa de Iavé.
10- Não cozinharás o cabrito no
leite da sua mãe. [Esta é uma antiga proibição tabu, encontrada, sob uma forma
mágica, em uma das lâminas órficas descoberta nos túmulos da Magna Grécia, em
Turi, hoje Terra Nova de Sibari, Calábria, século IV a. C.: "Cabrito cai
no leite", isto é, estou para me tornar imortal]
B) Os novos mitos. Israel agora
concebia a sua divindade principal com a mesma noção de deuses indo-europeus e
sumero-acadiano, isto é, como um senhor poderosíssimo acima da humanidade, ao
qual o devoto deveria submeter-se e servir; de fato, isto se explica pelo
motivo de o iaveísmo está no contexto de uma sociedade de classes, reflexo da
existência de senhores poderosos reais. O clero estatal elaborou uma mitologia
para a religião, graças aos acréscimos vindo da Mesopotâmia: da Assíria,
incorporaram a idéia de querube (plural, querubim), do caribu assírio, gênios
com cabeça de homem, corpo de leão ou touro, asas de águia e patas de ouro, que
vigiavam as portas de templo e palácios; da Babilônia, Iavé foi comparado a
Marduc, o deus que derrotava o dragão Tiamat e criava o mundo, em Israel, o
monstro era o dragão marinho Leviatã. Iavé estava acima do bem e do mal; a
abundância, as graças, infortúnios e as pragas era devido a Iavé - os textos
bíblicos mencionam que Iavé amaldiçoa gerações inteiras, destrói cidades,
aflige a humanidade com dilúvios, etc. Contudo, a jurisdição de Iavé sob o
mundo não era total; era idéia corrente que após a morte o defunto não estava
mais sob a proteção do deus.
Um outro mito que foi combatido e
propositadamente esquecido pelo clero iaveísta foi a lenda da primeira mulher
de Adão: Lilith, que se revoltou contra o seu marido. Esta lenda se tornou um
escândalo para a sociedade patriarcal e machista, e foi rejeitada na redação
final do Gênesis.
C) Reformas religiosas. Os reis
Saul, Asa, e Josafá proibiram a necromancia, a prostituição sagrada, em
seguida, combateram a erecção de estacas divinas (massebah). Saul e depois
Josias passaram a perseguir e a punir os feiticeiros com a morte (1Sm XXVIII, 3
e 9; 2Rs XXIII e XXIV).
Ocorre gradativamente o
desaparecimento do ro'eh, vidente e adivinho para questões privadas, cujo
Samuel foi um dos últimos, é substituído pelo nabi (do cananeu, nabu,
"aquele que foi chamado") profeta de origem cananéia que se vestia de
manto de pele preso por um cinto de couro, levava uma vida cenobítica,
perambulando em grupo pelas regiões e profetizando sob a autoridade de um
chefe, chamado "o pai".
VII - O Iaveísmo no século VII
Uma nova versão do decálogo foi
elaborada, que remonta ao período que vai do século VII ao século VI a. C.
Havia duas versões, a mais antiga está incluída no Deuteronômio V, 6-18, pode
ser atribuída ao programa de reforma religiosa, e a outra, a mais recente, está
transcrita no Êxodo XX, 2-17, e é de carácter litúrgico-ritual, pertence ao
período de cem a duzentos anos após a tomada de Jerusalém pelos babilônios;
1- Não terás outro deus diante de
Iavé. [Trata-se de uma afirmação de monoteísmo ritual, e não teológico; outros
povos possuem deuses tão verdadeiros quanto Iavé, mas os israelitas não podem
cultuá-los]
2- Não esculpirás nenhuma imagem
e nenhuma representação de coisas que estejam no céu, sobre a terra e nas águas
debaixo da terra.
3- Não pronunciarás em voz alta o
nome do Senhor. [Quem possui o segredo do nome também possui o poder mágico que
ele confere; é por isso que é necessários impedir que os estrangeiros possam
apoderar-se do nome do deus]
4- Guardai escrupulosamente o dia
de sábado. [O sábado era a festa da lua cheia dos sumérios, os babilônios
tomaram dos sumérios com o nome de shabattu; abstiam de trabalhar nos dias
"que traziam desgraças" (dias 7, 14, 21, e 28 dos dois meses de Elul
II e Marchesvan). Os cananeus tomaram o sábado dos babilônios que, por sua vez,
transmitiram aos israelitas com o nome de shabbath. Era o dia do repouso e "ação
de graças" recordando os anos que os hebreus passaram como escravos no
Egito, e foi mais tarde estendidos aos escravos hebreus. Sob o impulso dos
profetas do século VII, teve um significado teológico: o dia de descanso de
Iavé]
5- Honrarás teu pai e tua mãe.
[Trata-se de um preceito que se seguido assegura longos anos de vida na terra]
6- Não matarás. [Em hebraico, a
expressão é "não assassinar", isto é, não matar um membro do clã;
outrossim, a morte do inimigo, mulheres e crianças, é admitida]
7- Não praticarás adultério.
[Isto é, apenas não seduzir uma mulher casada ou apenas prometida a outro;
seduzir uma mulher núbil ou escrava não é adultério, e o mesmo não se aplica às
mulheres]
8- Não roubar.
9- Não levantar o falso
testemunho contra o teu vizinho.
10- Não desejar a mulher do seu
vizinho, nem o seu campo, a sua escrava, o seu escravo, o seu boi, o seu asno,
etc. [O termo hebraico para desejar é "por os olhos em cima", é
provável que se refira ao mau olhado, isto é, lançar um mau agouro sobre a
propriedade alheia]
VIII - Epílogo
Com o cisma político, Iavé
tornou-se um deus nacional de dois povos inimigos. Este foi o primeiro exemplo
histórico que permitiu a concepção de um deus de uma outra nação, e daí para o
universo.
Foram os nabim (singular: nab),
profetas errantes que combateram o culto deBaal e outros deuses, transformando
a religião iaveística centrada no templo de Jerusalém, e depois, pelos
sacerdotes do exílio, em uma religião ritualista.
IX - Bibliografia
FOHRER, Georg: História da
Religião de Israel, Edições Paulinas, 1982.
HUBERT, Henri et Lévy, Isidore:
Manuel d’Histoire des Religions, Librairie Armand Cilin, Paris, 1904.
DONINI, Ambrogio: Breve História
das Religiões, Editora Civilização Brasileira S/A, RJ, 1965.
BRANDON, S. G. F. (editor):
Dictionary of Comparative Religion, The University of Manchester Press,Londres,
Inglaterra, 1970.
DONNER, Herbert. História de
Israel e dos Povos Vizinhos. 1a edição. Petrópolis, R. J. : Editora Vozes S.
A., 1997. 535 páginas, em dois volumes.
GARELLI, Paul et NIKIPROWETZKY,
V. O Oriente Próximo Asiático (impérios mesopotâmicos e Israel), 1a edição. São
Paulo, S. P. : Editora Universidade de São Paulo, 1982. 338 páginas.
MOSCATI, Sabatino. Las Antigas
Civilizaciones Semíticas. 1a edição espanhola. Barcelona, Espanha :Editiones
Garriga S. A., 1960. 318 páginas.
CARREIRA, José Nunes. Estudos de
Cultura Pré-Clássica. 1a edição. Lisboa, Portugal : Editora Presença, 1985.
fonte: http://deusesehomens.com.br/deuses/israelita-judaico/item/181-o-politeismo-no-antigo-israel










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