domingo, 14 de junho de 2020

Bezerros de ouro, reais?



TEVE MESMO UM BEZERRO DE OURO?

Todos conhecem a passagem dos bezerros de ouro. Moisés sobe o monte e permanece lá por quarenta dias, enquanto o povo faz dois bezerros de ouro.



O autor do ebook (que contexta a bíblia) afirma que o deus de Israel era o deus touro dos cananeus, associado a Baal, afirma que Aarão fez dois bezerros de ouro por ser essa a representação original do deus Israelita e porque segundo o texto Arão afirma que aqueles bezerros eram o deus de Israel:

"E Arão, vendo isto, edificou um altar diante dele; e apregoou Arão, e disse: Amanhã será festa ao Senhor"
Êxodo 32:5


Já que eu estou analisando o entendimento de Josefo, o que Josefo falou sobre esses bezerros?

Resposta: Não falou:

114. Êxodo 24. Algum tempo depois, Moisés voltou ao monte, subiu-o à vista de todo o povo e lá ficou quarenta dias. Essa demora os pôs em grande pena, e a dúvida de que algum mal lhe tivesse acontecido era a causa principal de seu sofrimento. Cada qual falava a seu modo: os que não o estimavam diziam que animais ferozes o haviam devorado, outros imaginavam que Deus o havia levado consigo e os mais sensatos
hesitavam entre as duas opiniões, considerando numa a desgraça que pode ocorrer a todos os homens e consolando-se à vista da outra, que lhes parecia mais conforme à virtude de Moisés. Porém, na dúvida de nunca mais poderem contar com tal chefe e tão poderoso protetor, viram-se em extrema aflição, porque não viam esperança alguma que lhes mitigasse os temores. Mas não ousaram levantar acampamento, porque Moisés lhes havia ordenado que esperassem naquele lugar. Ele voltou, por fim, depois de quarenta dias, sem ter sido alimentado por comida humana durante todo esse tempo. A presença dele encheu o povo de alegria. Moisés falou lhes do cuidado que Deus continuava a ter para com eles e informou-os que Ele havia
ordenado, no que se refere à maneira como deviam agir para viver em perfeita felicidade, que construíssem um tabernáculo, ao qual Ele desceria algumas vezes. Eles deveriam levá-lo consigo, a fim de não serem mais obrigados a consultar a Deus no monte Sinai, porque quando Ele estivesse no Tabernáculo receberia ali os votos do povo e ali lhes escutaria as orações. Moisés ensinou-os, segundo o que o próprio Deus lhe havia manifestado, como Ele queria que se construísse o Tabernáculo, que era como um Templo portátil, e exortou-os a não perderem tempo em construí-lo. Apresentou-lhes em seguida duas tábuas, nas quais
Deus havia gravado com as próprias mãos os Dez Mandamentos de que acima falamos, estando cinco em cada tábua.


Estranho não? Segundo Josefo o povo até se alegrou ao ver Moisés e imediatamente começaram a construir um tabernáculo para Deus.

Já na narrativa bíblica, há mortes por causa do bezerro. Mas, quando Jeroboão faz o mesmo, dois bezerros de ouro, não acontece nada e ainda se origina todo um culto idolatra no reino do norte, Samaria, que ficou conhecido como o pecado de Jeroboão:

"E disse Jeroboão no seu coração: Agora tornará o reino à casa de Davi. Se este povo subir para fazer sacrifícios na casa do SENHOR, em Jerusalém, o coração deste povo se tornará a seu senhor, a Roboão, rei de Judá; e me matarão, e tornarão a Roboão, rei de Judá. Assim o rei tomou conselho, e fez dois bezerros de ouro; e lhes disse: Muito trabalho vos será o subir a Jerusalém; vês aqui teus deuses, ó Israel, que te fizeram subir da terra do Egito. E pôs um em Betel, e colocou o outro em Dã. E este feito se tornou em pecado; pois que o povo ia até Dã para adorar o bezerro"
1 Reis 12:26-30



"O teu bezerro, ó Samaria, te rejeitou; a minha ira se acendeu contra eles; até quando serão eles incapazes da inocência? Porque isso vem de Israel, um artífice o fez, e não é Deus; mas em pedaços será desfeito o bezerro de Samaria"
Oséias 8:5,6

"Os moradores de Samaria serão atemorizados pelo bezerro de Bete-«ven; porque o seu povo se lamentará por causa dele, como também os seus sacerdotes idólatras que nele se regozijavam, por causa da sua glória, que se apartou dela"
Oséias 10:5

Jeroboão não conhecia a história de Moisés? E Josefo?

Bezerro
Touros eram associados a cultos cananeus, cujos deuses geralmente tinham essa representação, como Baal por exemplo. Moloque também era representado com chifres e temos também o boi Ápis do Egito.


Muitos comentadores acreditam que Jeroboão não tinha a intenção de representar o deus de Israel como touros, mas a intenção de fazer um culto rival adotando uma divindade pagã, uma vez que em sua época, cultos pagãos vizinhos já se infiltravam dentre o povo.

A frase dita por Jeroboão, "Estes são os deuses que te fizeram subir da terra do Egito" demonstra que o povo não tinha uma concepção antropomórfica de deus e Jeroboão se aproveitou disso para convence-los de que aqueles bezerros eram a imagem de deus, logo, a história de Moisés fica sem sentido algum aqui.

Então enquanto o reino do sul tinha a arca da aliança, o reino do norte uma representatividade de deus. Enquanto o reino do sul tinha o templo como local de adoração o reino do norte tinha o monte Gerizim, onde foram erguidos altares.

Já a saga de Moisés, muitos críticos textuais acreditam ser uma construção posterior, o que explicaria o fato tanto de Josefo quanto do povo da época de Jeroboão desconhence-la.

Comentário da bíblia de Jerusalém:



A bíblia de genebra inclusive comenta o contraste dessa passagem com a fidelidade do povo ao testemunhar as maravilhas de Deus o que confirma a tradição judaica de revelação nacional:

"E viu Israel a grande mão que o Senhor mostrara aos egípcios; e temeu o povo ao Senhor, e creu no Senhor e em Moisés, seu servo"
Êxodo 14:31

Então essa mudança de comportamento fica meio brusca e sem sentido. Também é forçoso acreditar que no meio do deserto, aos pés de um monte e em apenas quarenta dias os Israelitas tivesse conseguido fazer duas imagens esculpidas com o ouro de objetos pessoais e indenização do Egito.

Outro ponto controverso seria os descendentes de Arão terem sido escolhidos para o sacerdócio após isto.

O que Josefo disse sobre Jeroboão

Jeroboão mandou construir um palácio em Siquém, onde estabeleceu residência, e um outro na cidade de Fanuel. A festa dos Tabernáculos aproximava-se, e ele pensou que, se permitisse aos seus súditos ir celebrá-la em Jerusalém, a majestade das cerimônias e do culto que se prestava a Deus no Templo os levaria a se arrepender de tê-lo escolhido para seu rei. E, se eles o abandonassem para obedecer a Roboão, ele perderia não somente a coroa, mas correria o risco de perder também a vida. Para remediar esse mal que ele tanto motivo tinha para temer, mandou construir dois templos: um na cidade de Betei e outro na de Dã, que fica perto da nascente do Pequeno Jordão, e mandou fazer dois vitelos de ouro, os quais colocou nos templos. Reuniu em seguida as dez tribos e falou-lhes: "Meus amigos, creio que não ignorais que Deus está presente em toda parte, e assim não há lugar onde Ele não possa ouvir as orações e escutar os votos daqueles que o invocam.

Por isso não acho conveniente que, para adorá-lo, vos deis ao trabalho de ir a Jerusalém, que está tão longe
e que nos é inimiga. Aquele que construiu o Templo era um homem como eu, e então mandei fazer e consagrar a Deus dois bezerros de ouro, um dos quais foi colocado na cidade de Betei e outro na de Dã, a fim de que, conforme estiverdes mais próximos de uma ou de outra dessas duas cidades, possais ir até lá prestar as vossas homenagens a Deus.

Não vos faltarão sacerdotes e levitas. Eu os escolherei dentre vós mesmos, sem que para isso tenhais de recorrer à tribo de Levi e à descendência de Arão. E aqueles que desejarem ser recebidos para desempenhar essas funções só terão de oferecer a Deus em sacrifício um vitelo e um carneiro, da mesma maneira como se diz que Arão fez ao ser nomeado sacerdote".
Eis o modo como Jeroboão, nomeado sacerdote, enganou o povo que a ele se havia submetido e o levou a abandonar a lei de Deus e a religião de seus antepassados. Isso foi a causa dos males que os hebreus sofreram depois e da escravidão a que se encontraram reduzidos após terem sido derrotados por nações estrangeiras, como diremos a seu tempo.

O profeta

Mandou fazer um altar em frente ao bezerro de ouro, pretendendo ele mesmo exercer o cargo de sumo sacerdote. Subiu ao altar acompanhado pelos sacerdotes que ele mesmo havia escolhido. Porém quando ia oferecer vítimas em holocausto, na presença de todo o povo, um profeta enviado por Deus de Jerusalém, chamado Jadom, lançou-se no meio da multidão e, voltado para o altar, falou tão alto que o rei e todos os presentes puderam ouvir: "Altar, altar, eis o que diz o Senhor: Um príncipe virá da família de Davi, de nome Josias, e imolará nesse mesmo altar todos os falsos sacerdotes que ainda estiverem vivos e queimará os ossos dos que já tiverem morrido, pois eles enganam o povo e o levam à impiedade. Para que ninguém duvide da veracidade de minha profecia, vede o seu efeito neste mesmo instante: este altar ficará em pedaços, e a gordura dos animais, de que está coberto, será espalhada por terra".

Tais palavras deixaram Jeroboão tão encolerizado, que ele ordenou que prendessem o profeta. Estendeu a mão para dar a ordem, mas não a pôde recolher porque naquele instante ela ficou seca, como morta. O altar quebrou-se em vários pedaços, e os holocaustos que estavam sobre ele caíram por terra, segundo anunciara o homem de Deus. Jeroboão, não podendo mais duvidar de que Deus falara pelo profeta, rogou a este que pedisse a sua cura. Ele o fez, e a mão recobrou o movimento, como antes. Jeroboão ficou tão contente que pediu ao profeta que ficasse e assistisse ao banquete. Ele, porém, recusou o convite, dizendo que Deus o havia proibido de pôr o pé no palácio, de comer o pão e beber a água daquela cidade e que lhe ordenara expressamente que voltasse por um caminho diferente daquele pelo qual tinha vindo. A recusa do profeta aumentou ainda mais o respeito de Jeroboão por ele.



Argumentos dos que defendem essa tese:

Todos relatos que mostram a ligação prévia dos israelitas com Yahveh poderão ser pura ficção, porque:

-          Se em Jerusalém já fosse praticado o culto a Yahveh, os bezerros de ouro não seriam uma alternativa, porque o culto de Yahveh é adverso ao uso de ídolos;

-          Se Jeroboão tivesse em mente uma alternativa para que o povo não se deslocasse a Jerusalém, teria construido um templo para esse mesmo culto de Yahveh no território do norte de Israel;

Ou, então, Yahveh seria, nesse tempo, adorado sob a forma de um bezerro de ouro e a proibição da adoração de imagens esculpidas ainda não fazia sentido.

Resposta

A maioria dos críticos acredita que a proibição de êxodo 20, a formula de êxodo 34 seria mais antiga:

"Não te farás deuses de fundição"
Êxodo 34:17

"Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não te encurvarás a elas nem as servirás; porque eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniqüidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam"
Êxodo 20:3-5

Note que não se encaixa com os versículos anteriores:

"E disse-lhe o Senhor: Vai, desce; depois subirás tu, e Arão contigo; os sacerdotes, porém, e o povo não traspassem o termo para subir ao Senhor, para que não se lance sobre eles. Então Moisés desceu ao povo, e disse-lhe isto.(Êxodo 19:24,25) Então falou Deus todas estas palavras, dizendo:(Êxodo 20:1)

Perceberam a interrupção no texto? Note os versículos seguintes:

"E todo o povo viu os trovões e os relâmpagos, e o sonido da buzina, e o monte fumegando; e o povo, vendo isso retirou-se e pôs-se de longe. E disseram a Moisés: Fala tu conosco, e ouviremos: e não fale Deus conosco, para que não morramos"
Êxodo 20:18,19

E a de êxodo 20 parece ter sido tomada de deuteronômio 5 que é anterior:

"Não terás outros deuses diante de mim; Não farás para ti imagem de escultura, nem semelhança alguma do que há em cima no céu, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra; Não te encurvarás a elas, nem as servirás; porque eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniqüidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam"
Deuteronômio 5:7-9

Então a proibição original seria a de fazer imagens de deuses como baal, moloque, etc.... E após Jeroboão ter convencido os habitantes da Samaria de que os bezerros eram seus deuses a proibição se transformou em qualquer tipo de imagem de escultura.

Tanto que Josefo apenas diz de forma resumida que a proibição era a de se fazer imagens de animais:

"Não se deve adorar a imagem de animal algum"

Portanto a narrativa de gênesis pode ter passado por uma redação posterior.

Então utilizar-se dessa passagem dos bezerros de ouro para dizer que o EL dos hebreus era um touro, é tomar a literalidade do texto, ignorando esses pormenores.

sexta-feira, 12 de junho de 2020

O Rico e o Lázaro


O RICO E O LÁZARO
vídeo: análise critica Lázaro


"Ora, havia um homem rico, e vestia-se de púrpura e de linho1 finíssimo, e vivia todos os dias regalada e esplendidamente. Havia também um certo mendigo, chamado Lázaro2, que jazia cheio de chagas à porta daquele; E desejava alimentar-se com as migalhas que caíam da mesa do rico; e os próprios cães vinham lamber-lhe as chagas. E aconteceu que o mendigo morreu, e foi levado pelos anjos para o seio de Abraão3; e morreu também o rico, e foi sepultado. E no inferno4, ergueu os olhos, estando em tormentos, e viu ao longe Abraão, e Lázaro no seu seio. E, clamando, disse: Pai Abraão, tem misericórdia de mim, e manda a Lázaro, que molhe na água a ponta do seu dedo e me refresque a língua, porque estou atormentado nesta chama. Disse, porém, Abraão: Filho, lembra-te de que recebeste os teus bens em tua vida, e Lázaro somente males; e agora este é consolado e tu atormentado. E, além disso, está posto um grande abismo5 entre nós e vós, de sorte que os que quisessem passar daqui para vós não poderiam, nem tampouco os de lá passar para cá. E disse ele: Rogo-te, pois, ó pai, que o mandes à casa de meu pai, Pois tenho cinco irmãos; para que lhes dê testemunho, a fim de que não venham também para este lugar de tormento. Disse-lhe Abraão: Têm Moisés e os profetas; ouçam-nos. E disse ele: Não, pai Abraão; mas, se algum dentre os mortos fosse ter com eles, arrepender-se-iam. Porém, Abraão lhe disse: Se não ouvem a Moisés e aos profetas, tampouco acreditarão, ainda que algum dos mortos ressuscite"
Lucas 16:19-31

1- Púrpura e linho eram vestimentas caras dos Egípcios.
2- Lázaro é na verdade Elazar que significa "Aquele que Deus ajuda" Temos um Elazar bem semelhante em segunda Macabeus:

"Havia um certo homem já de idade avançada e de bela aparência, Eleazar, que se sentava no primeiro lugar entre os doutores da Lei. Queriam coagi-lo a comer carne de porco, abrindo-lhe a boca à força. 19.Mas ele, cuspindo e preferindo morrer com honra a viver na infâmia, 20.caminhou voluntariamente para o instrumento de tortura, como devem caminhar os que têm a coragem de rejeitar o que não é permitido comer por amor à vida.* 21.Os encarregados desse ímpio banquete ritual, já desde muito tempo possuíam relações de amizade com Eleazar. Tomaram-no à parte e rogaram-lhe que fizesse trazer as carnes permitidas, que ele mesmo tivesse preparado, para comê-las como se fossem carnes do sacrifício, conforme tinha ordenado o rei. 22.Desse modo, ele seria preservado da morte, e granjearia sua benevolência em vista da velha amizade. 23.Mas Eleazar, tomando uma nobre resolução, digna de sua idade, da autoridade que lhe conferia sua velhice, do prestígio que lhe outorgavam seus cabelos brancos, da vida íntegra conservada desde a infância e digna sobretudo das sagradas leis estabelecidas por Deus, preferiu ser conduzido à morte. 24.“Não é próprio da nossa idade – respondeu ele – usar de tal fingimento, para não acontecer que muitos jovens suspeitem de que Eleazar, aos noventa anos, tenha passado aos costumes estrangeiros. 25.Eles mesmos, após o meu gesto hipócrita, e por um pouco de vida, se deixariam arrastar por causa de mim, e isso seria para a minha velhice a desonra e a vergonha. 26.E mesmo se eu me livrasse agora dos castigos dos homens, não poderia escapar, nem vivo nem morto, das mãos do Todo-poderoso. 27.Sendo assim, se eu morrer agora, corajosamente, vou mostrar-me digno de minha velhice e terei deixado aos jovens um nobre exemplo de zelo generoso, segundo o qual é preciso dar a vida pelas santas e veneráveis leis.” 28.Ditas essas palavras, dirigiu-se diretamente ao suplício."
II Macabeus, 6 - 18;28

3- Seio de Abrão significa a bolsa acima da cinta, que se faz ao puxar a roupa um pouco para cima. Pode se referir ao cuidado especial (como no caso do amor que uma mãe mostra ao filho que carrega nas dobras do seu vestido sobre o peito) ou ao lugar de honra à mesa ao lado de Abraão. Quando alguém reclina à mesa, sua cabeça ficava aproximadamente ao nível do peito do vizinho (João 13:23)


Nos escritos de Hipólito aparece a descrição do seio de Abraão da seguinte maneira:
Há uma descida nesta região, cuja porta nós acreditamos que está um arcanjo com uma hoste; quando aqueles passam através desta porta, estes são conduzidos para baixo pelos anjos designados sobre as almas. Eles não vão da mesma maneira; os justos são guiados ao lado direito e conduzidos com hinos, cantados pelos anjos designados sobre aquele lugar, em uma região de luz; em que os justos têm morado desde o começo do mundo; não constrangidos por necessidade, mas sempre gozando a expectativa das boas coisas que eles vêem, e felizes na expectativa daquelas novas alegrias que serão peculiares a cada um deles, e considerando aquelas coisas além do que nós temos aqui; lá não é nenhum lugar de trabalho duro, nem calor ardente, nenhum frio congelante, nem existe qualquer espinho; mas o semblante dos pais e do justo, que eles vêem, sempre os sorri, embora eles esperam por esse descanso e vida nova eternal no céu, onde é sucedida por esta região. Esse lugar nós chamamos O Seio de Abraão


4- Submundo Grego para onde iam os mortos.

5- A atestação mais antiga do judaísmo rabínico sobre a imortalidade da alma está em I Enoque Etíope 22. No verso um diz:
 “Desde ali fui a outro lugar, e me foi mostrado no ocidente...”
e o autor afirma que viu ali o lugar separado para os mortos até o juízo, ou seja, o hades. Mas o detalhe interessante é que o hades está situado no “ocidente” ou oeste (concepção egípcia); já no resto do livro o hades está situado debaixo da terra93 (concepção hebraica e grega). Para os egípcios o Oeste ou a região dos mortos eram chamados de “Amentit”. Essa idéia originou-se na mitologia egípcia, pois Amentit era a deusa que personificava o Oeste ou a região dos mortos. Porque, então, a atestação judaica mais antiga sobre imortalidade da alma mencionaria o hades no ocidente e não debaixo da terra? Existiria alguma relação egípcia com o texto de I de Enoque? Sendo o texto lucano bastante parecido ao texto de Enoque, seria possível alguma relação egípcia com a parábola do rico e Lázaro?

Em 1918, Hugo Gressman elaborou uma monografia mencionando um conto popular egípcio preservado no lado reverso de um documento datado do ano 47d.C. (ver anexos). Esse documento demótico data do I século, mas o conto egípcio ali mencionado seria do VI século a.C. Ele propõe a idéia de que essa lenda egípcia deu origem a uma série de contos místicos96 possivelmente muito bem conhecidos nos círculos judaicos do I século. E ele conclui que provavelmente a narrativa do rico e Lázaro, utilizada por Cristo, era um destes contos.
O conto egípcio narra a história, dita verídica por alguns, de Satmi-Kharnois e de seu filho Senosíris. É esta:

"Um dia Satmi viu que levavam um rico para ser sepultado na montanha com honras militares e lamentações. Olhou uma segunda vez e, a seus pés, percebeu um pobre que era transportado para fora de Mênfis, deitado numa esteira, sozinho e sem ninguém do mundo que o acompanhasse. Satmi disse: ‘Pela vida de Osíris, o Senhor de Amentit, seja-me concedido em Amentit ter o que tem os ricos – grande lamentação – e não o que têm os pobres que são levados à montanha sem pompa nem honrarias!’. Senosíris, seu filhinho, lhe disse: ‘Em Amentit, seja feito contigo o que se fez com este pobre homem, e não seja feito contigo em Amentit o que fizeram com este rico’.
(Senosíris mandou seu pai descer em Amentit).
Então, Satmi percebeu um personagem distinto, vestido com roupas de linho fino e que se achava perto do lugar em que Osíris estava, numa posição muito elevada... Senosíris lhe disse: ‘Meu pai Satmi, vês este importante personagem vestido com roupas de linho fino e que se acha perto do lugar em que está Osíris? É aquele pobre homem que viste quando o levavam para fora de Mênfis, sem que ninguém o acompanhasse, e que estava deitado numa esteira! Conduziram-no para o Hades; pesaram suas más obras e seus méritos durante o tempo em que viveu na terra; verificaram que seus méritos eram mais numerosos do que suas más obras. Considerando-se que o período de vida que Tot inclui em sua conta não correspondia a uma soma de felicidade suficiente em comparação ao tempo em que passara na terra, foi ordenado perante Osíris que se transferisse o cortejo fúnebre deste rico, que viste ser levado para fora de Mênfis com honras militares, para o pobre homem, que é este aqui presente, depois de haver ele passado no meio das divindades veneráveis, dos fachos de Socarosíris, perto do lugar em que se acha Osíris. O rico que viste foi conduzido para o Hades; pesaram-se suas más obras e seus méritos; constatou-se que suas más obras eram mais numerosas do que seus méritos aqui na terra; ordenaram que no Jardim de Amendoeiras ele recebesse a sua retribuição, e foi ele que viste com o eixe da porta do Jardim de Amendoeiras enfiado em seu olho, girando dentro deste olho, tanto quando se fecha quanto quando se abre a porta, enquanto de sua boca saem gritos fortíssimos... Quem faz o bem na terra recebe o bem no Jardim de Amendoeiras, mas quem faz o mal recebe o mal

Acredita-se que este relato teria sido trazido para Israel por judeus alexandrinos e se tornou bem popular em Jerusalém99. Logo versões judaicas surgiram e aqui está uma delas. Trata-se de um conto rabínico do devoto e do filho do publicano Ma’yan:
Havia em Ascalon dois devotos: comiam juntos, bebiam juntos, dedicavam-se juntos a leitura da Torá. Um deles morreu e não lhe prestaram a mínima homenagem. O filho do publicano Ma’yan morreu e toda a cidade acorreu para prestar-lhe homenagem. Então o devoto ainda vivo começou a se lamentar dizendo: “Que desgraça! Aos inimigos de Israel (= os maus israelitas) nada acontece (de mau)”. Em sonho ele teve uma visão e lhe disseram: “Não desprezes os filhos do teu Senhor (=os israelitas)! O primeiro (= o devoto) cometeu um pecado, e foi assim que escapou (=sua falta foi expiada por seu enterro solitário); o segundo praticou uma boa obra, e foi assim que escapou (= teve sua recompensa no seu enterro magnífico)”. Que pecado cometera tal devoto? Não fora uma falta grave, mas certa vez colocara os “tefilins” da cabeça antes de colocar os das mãos. E que boa obra fizera o filho do publicano Ma’yan? Certamente, não se tratava de uma boa obra verdadeira, mas uma vez preparara um almoço para os conselheiros (da cidade), e estes não vieram à refeição. Então disse ele: “Os pobres podem comê-lo para que não se perca...”. Alguns dias depois, este devoto viu em sonhos o devoto, que fora seu companheiro, num jardim, à sombra perto de uma fonte. Viu também o filho do publicano Ma’yan que estirava a língua ás margens de um rio: queria alcançar a água e não conseguia.

Histórias como essas eram trazidas por pessoas que afirmavam ter visões ou até mesmo visitado o mundo dos espíritos a fim de informar sobre as condições ali existentes. Um outro detalhe interessante são as variantes textuais com os nomes Nínive, Finéias e Amenofis aplicados ao rico, que se não forem de origem egípcia, ao menos eram utilizados na região do Nilo entre os séculos XVI a XII a.C

Lucas pode ter adaptado esta parábola porque deveria ser já bem conhecida e harmonizava com o que Jesus dizia:

"E dizia também ao que o tinha convidado: Quando deres um jantar, ou uma ceia, não chames os teus amigos, nem os teus irmãos, nem os teus parentes, nem vizinhos ricos, para que não suceda que também eles te tornem a convidar, e te seja isso recompensado. Mas, quando fizeres convite, chama os pobres, aleijados, mancos e cegos, E serás bem-aventurado; porque eles não têm com que to recompensar; mas recompensado te será na ressurreição dos justos"
Lucas 14:12-14

"Mas ai de vós, ricos! porque já tendes a vossa consolação. Ai de vós, os que estais fartos, porque tereis fome. Ai de vós, os que agora rides, porque vos lamentareis e chorareis"
Lucas 6:24,25

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